quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Pedro Batista

Cotidiano

Quando cai a noite
Tudo foi tão rápido
Mais um dia se foi
Como se fosse um lapso.

Tarefas diárias pra executar
Tantas tarefas que o dia não dá
Outra noite o sono chega
Um novo dia pra começar.

Dia e noite, noite e dia
O que fazer com tanta correira?
Fim de tarde, sol a pino
E muita gente vindo.

Mais uma semana
Outro mês
Um ano se foi
E o que você fez?

Laura Batista

Atores de Plantão

Você já percebeu?
Uma pessoa que cresceu
Brincou e esqueceu

Que é preciso falar a verdade
Na maior sinceridade
Já perdia a fé na humanidade
Deus, porque tanta maldade!

Que hipocrisia
Quem imaginaria
A falta de sabedoria
Mas quem diria!

Pedro Henrique do Prado Rocha

A Música
Depois de um dia longo e exaustivo,
Não há nada melhor do que sentar e descansar,
Ligue a música e, de repente,
Você já está em outro lugar.
Você se sente no paraíso,
Não há ninguém para lhe incomodar,
E em algumas ocasiões,
Ajuda, inclusive, a tristeza passar.
Deixe-se ser levado a outro mundo,
Dos poços mais fundos e escuros,
Até o Sol a brilhar,
Pois na música você sempre poderá confiar.
Cada som diferente se põe a criar,
E de repente,
Você percebe,
Que é ela quem lhe ajuda a continuar.
Seus segredos mais profundos,
E desejos irrealizados,
Os quais não pode contar,
Confie na música, pois ela irá te elevar.
Te elevará às maiores alturas,
Te elevará ao céu ,
Te elevará à Lua,
Não precisa se assustar,
Pois é a música que lhe irá levar,
Aonde quiser, à qualquer lugar
É ela quem lhe dá
A vontade e a liberdade de sonhar.

Isadora Rezende Lopes

Política
                Tão perto das eleições, e a única coisa que vejo é a poluição visual e sonora das cidades. Cartazes com rostos e promessas falsas, musicas irritantes repetindo números e mais números. Não nos preocupamos nem em ligar a televisão, propagandas políticas á cada 5 minutos nos cercam nos canais abertos.
               O brasileiro criou um conceito sobre a política e esse não muda. Dizemos que todo político é corrupto, mas nem nos preocupamos em que número que digitamos nas urnas. Colocamos a culpa em todos esses candidatos corruptos, afinal é o que a política é não é? O brasileiro não discute, os políticos são corruptos, mas simplesmente aceitamos esse fato, não questionamos nos adaptamos.
               Não sei exatamente definir minha opinião sobre a política brasileira, com mais da metade da população jovem alienada é o que esperamos de todo jovem, o problema é que a alienação não afeta só aos jovens, a aceitação da corrupção e o voto inconsciente é a prova disso, porque o povo não coloca pessoas decentes no governo? Não analisamos os candidatos, e depois ainda reclamamos da corrupção ou de como esta o país. A única coisa que esse país precisa é de educação, porque a educação resolveria o resto dos problemas, mas vivemos nesse ciclo vicioso: escolhemos os candidatos errados, não há investimento em educação, a população fica burra, e novamente escolhem os candidatos errados. Mas a população não está nem aí, o que queremos mesmo, é assistir a copa no nosso país, não é mesmo?

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Meu ideal seria escrever... - Rubem Braga

 Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse -- "ai meu Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem...
ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria -- "mas essa história é mesmo muito engraçada!".

Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.

Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse -- e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse -- "por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!" . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.

E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago -- mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina".

E quando todos me perguntassem -- "mas de onde é que você tirou essa história?" -- eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história...".

E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.

Martijn Scholten

Altas horas na madrugada
E não consigo dormir
Quase cinco da manhã
E eu parado aqui.

Olho pela janela
Vejo somente uma pomba
Mas a pomba parece feliz
Mais do que eu, um "songa-monga".

Não queria fazer isso
Mas achei necessário
Tomei minhas pílulas para dormir
Amanhã é meu aniversário.

Deve ser por isso
Que não consigo dormir
Acho que estou ancioso
Pois mais um dia vem aí.

A cabra e Francisco - Carlos Drummond de Andrade

 Madrugada. O hospital, como o Rio de Janeiro, dorme. O porteiro vê diante de si uma cabrinha malhada, pensa que está sonhando.

- Bom palpite. Veio mesmo na hora. Ando com tanta prestação atrasada, meu Deus.

A cabra olha-o fixamente.

- Está bem, filhinha. Agora pode ir passear. Depois volta, sim?
...

Ela não se mexe, séria.

- Vai cabrinha, vai. Seja camarada. Preciso sonhar outras coisas. É a única hora em que sou dono de tudo, entende?

O animal chega mais para perto dele, roça-lhe o braço. Sentindo-lhe o cheiro, o homem percebe que é de verdade e recua.

- Essa não! Que é que você veio fazer aqui, criatura? Dê o fora, vamos.

Repele-a com jeito manso, porém a cabra não se mexe, encarando-o sempre.

- Aiaiai! Bonito. Desculpe, mas a senhora tem de sair com urgência, isto aqui é um estabelecimento público. (Achando pouco satisfatória a razão). Bem, se é público devia ser para todos, mas você compreende... (Empurra-a docemente para fora, e volta à cadeira).

- O quê? Voltou? Mas isso é hora de me visitar, filha? Está sem sono? Que é que há? Gosto muito de criação, mas aqui no hospital, antes do dia clarear... (Acaricia-lhe o pescoço.) Que é isso! Você está molhada? Essa coisa pegajosa...O que: sangue?! Por que não me disse logo, cabrinha de Deus? Por que ficou me olhando assim feito boba? Tem razão: eu é que não entendi, devia ter morado logo. E como vai ser? Os doutores daqui são um estouro, mas cabra é diferente, não sei se eles topam. Sabe de uma coisa? Eu mesmo vou te operar!

Corre à sala de cirurgia, toma um bisturi, uma pinça; à farmácia, pega mercúrio-cromo, sulfa e gaze; e num canto do hospital, assistido por dois serventes, enquanto o dia vai nascendo, extrai da cabra uma bala de calibre 22, ali cravada quando o bichinho, ignorando os costumes cariocas da noite, passava perto de uns homens que conversavam à porta de um bar.

O animal deixa-se operar, com a maior serenidade. Seus olhos envolvem o porteiro numa carícia agradecida.

- Marcolina. Dou-lhe este nome em lembrança de uma cabra que tive quando garoto, no Icó. Está satisfeita, Marcolina?

- Muito, Francisco.

Sem reparar que a cabra aceitara o diálogo, e sabia o seu nome, Francisco continuou:

- Como foi que você teve ideia de vir ao Miguel Couto? O Hospital Veterinário é na Lapa.

- Eu sei, Francisco. Mas você não trabalha na Lapa, trabalha no Miguel Couto.

- E daí?

- Daí preferi ficar por aqui mesmo e me entregar a seus cuidados. Não posso explicar mais do que isso, Francisco. As cabras não sabem muito sobre essas coisas. Sei que estou bem ao seu lado, que você me salvou. Obrigada, Francisco.

E lambendo-lhe afetuosamente a mão, correu os olhos para dormir. Bem que precisava.

Aí Francisco levou um susto, saltou para o lado:

- Que negócio é esse: cabra falando?! Nunca vi coisa igual na minha vida. E logo comigo, meu pai do céu!

A cabra descerrou um olho sonolento, e por cima das barbas parecia esboçar um sorriso:

- Pois você não se chama Francisco, não tem o nome do santo que mais gostava de animais neste mundo? Que tem isso, trocar umas palavrinhas com você? Olhe, amanhã vou pedir ao Ariano Suassuna que escreva um auto da cabra, em que você vai para o céu, ouviu?

Estrambote

Que um dia Francis Jammes abra
lá no alto seu azul aprisco.
Mande entrar Marcolina, a cabra,
e seu bom amigo Francisco.